Sem Olhar Pra Trás
- Danilo? - Conforme ele o caminhava cautelosamente pelas rachaduras escondidas pela escuridão, a sua voz ecoou pelo submundo até se chocar contra as fundações eternas do alicerce que o mantinha de pé desde o início dos tempos. - Danilo, preciso que siga a minha voz. Meu nome é Manuel Exício, e sua família me contratou pra que eu viesse buscá-lo... Preciso que você se concentre. É importante que saiba que eu vim pra te levar de volta... Pois há pouco tempo atrás, você morreu, Danilo.
Não houve resposta imediata a não ser pelos trovões que rasgavam o céu negro logo acima, pincelando luz sobre a terra desforme conforme raios selvagens açoitavam as nuvens, que tristes, choravam sem fim.
- Eu morri...? - Uma voz perdida atravessou a neblina que se formava ao redor de uma colossal entrada de pedras em formato de um arco enorme.
- Morreu... Não mais do que algumas poucas horas atrás. - Manuel falou buscando sempre, pela escuridão molhada e fria, os melhores caminhos até a alma perdida de Danilo, seu cliente falecido. - Ainda temos tempo de sair daqui, João. Mas eu preciso que continue falando comigo... E que fique onde está. Não se mova! - A escadaria que se mantinha oculta logo após o grandioso arco de pedras era talvez interminável, e o próprio Manuel se viu em dúvidas se conseguiria atingir o topo da torre macabra a tempo ou não.
- Quem é você? - Questionou Danilo quando viu a figura forte e confiante finalmente se aproximar dele, após emergir das escadas que brotavam do chão, à beira dum abismo cujo fundo se escondia da vista.
- Meu nome é M--
- Eu ouvi seu nome. - Danilo o interrompeu. - Eu quero saber quem é você. Como é que está aqui comigo, e como pretende me levar de volta. Eu pensei que a morte fosse... Permanente.
- Ela é, Danilo. - Manuel disse se aproximando lentamente do cliente. - Mas há regras e exceções estranhas que não são da nossa competência. A sua família contratou meus serviços assim que você baixou hospital... Por sorte ou por destino, eu estava por perto, e pude tirar proveito de alguma regra ou de alguma exceção. Mas nós não temos muito tempo... Seu corpo pode se dec--
- Que lugar é esse? - Ele indagou, dando as costas para Manuel, e deixando a vista explorar as distantes regiões góticas e macabras que os cercavam naquele ponto central.
- Aqui... - Manuel buscava as palavras. - Aqui é pra onde a maioria vem... Quase todos.
- Então é o inferno?
- É uma aglomeração, Danilo. Dezenas de milhares de anos de desavenças e devassidade geraram uma nova realidade... A gravidade faz o resto.
- Danilo, - Manuel observou os olhares atentos de Danilo, e pra ele, um profissional do seu ramo, todo o desenrolar do texto já era nítido. - Eles tão te esperando de volta. Não é bom pros negócios voltar sem o cliente.
- Eu não posso voltar contigo, Sr. Exício. - Danilo balançou a cabeça educadamente.
- É... Imaginei. - Manuel disse, lamentando. - Você perdeu alguém... Acertei? - Exício o questionou, já acostumado a reclamações e lamentações.
- Pior... Eu a deixei pra trás.
- Você não vai conseguir encontrá-la, Danilo. - Manuel disse enquanto se sentou próximo à beirada do abismo. - Aqui tudo é muito volátil e perturbador. Nada faz sentido nenhum, e o tempo também funciona como bem quer. Eu conheço algumas paisagens aqui e ali, mas isso só porque venho trafegando por aqui desde criança... E quando sem querer eu trouxe de volta um amigo do colégio que caiu da escada, tudo mudou.
- Você pode me ajudar, né? Pode ir me guiando. - Danilo o questionou, com um brilho de esperança no olhar tão sincero que até assombrou Exício.
- Não dá, Danilo. É impossível... Devo avisá-lo... Se eu partir sem você, não vou olhar pra trás. - Manuel respondeu cabisbaixo. - Se você decidir ficar pra tentar encontrar quem quer que seja que você sente que deixou pra trás um dia, muito pior do que buscar uma agulha num palheiro, como quem procura um amor verdadeiro ainda em vida, essa busca só vai acabar se tornando o teu tormento eterno.
- Manuel, - Danilo disse enquanto sem semblante encarava, ao longe, tempestades densas e barulhentas como o lamento de um deus distante enfurecido. - Penso que talvez você não entenda... Mas eu a encontrei ainda em vida uma vez, e não me recordo de nunca ter sido tão feliz quanto quando estava ao seu lado... Eu vou ficar. Vou procurá-la... E quanto ao tormento eterno... Não se trata de nenhum estranho, tendo em vista que ele e eu flertamos um com outro desde que a deixei pra trás naquele dia, sem ao menos, pra um último beijo, olhar pra trás......
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