Terapia Ocupacional
- Mas... Por que exatamente você pensa que ele pode estar demonstrando algum sinal de interesse? - A terapeuta da empresa, perguntou, quase escondendo-se por trás dos seus óculos de armação preta e grande.
- Ai, Débora, não sei bem explicar, sabe? É o jeito que ele tem de sorrir quando a gente tá no refeitório no horário do lanche. Ele é tão atencioso e gentil... Mas eu admito que pode ser uma confusão minha. Será? - A moça admitiu, quase envergonhada de estar trazendo o assunto à tona pela incontável vez durante suas sessões semanais com a terapeuta.
- Sim, pode ser... Mas o que exatamente te faz pensar nisso? É só a gentileza dele, ou tem algo a mais de fato? - Ela insistiu.
- Acho que se eu pensar bem... - Clara lamentou. - Acaba sendo só a gentileza mesmo. Será que eu devesse fazer algo a respeito? Pagar pra ver? Chamar pra sair?
- Só você pode responder essa pergunta. Mas... Será se vale a decepção? - Débora a questionou, removendo os óculos lentamente e mantendo-os numa das mãos. - Será se vale a pena arriscar deixar estranho a amizade de vocês?
- É... Nesse ponto... Pensando por esse lado... Tem toda razão. Enfim... - A adorável moça falou, levantando-se da poltrona, e caminhando até a porta da pequena sala. - Obrigada, tá? É sempre tão esclarecedor quando a gente troca uma ideia.
- Não precisa agradecer, Clara... É um prazer ajudar... Tem mais alguém aí fora?
- A Luciana tá aqui. Quer que eu peça pra ela entrar? - Ela respondeu ainda com tons de gratidão lhe emanando da voz.
- Sim, por favor. - Taís respondeu enquanto Luciana caminhava pela porta. - Lu, por favor, sente-se na poltrona... Podemos começar?
- Doutora Débora, infelizmente o assunto é o mesmo da última vez. Nada mudou. - Luciana disse enquanto ria parceladamente a cada afirmação. - Continuo vendo sinais que não existem naquele homem. Às vezes é nítido feito a luz do dia... E aí lembro das nossas sessões, e percebo que pode ser tudo truque!
- Mas, Lu, não precisa ser truque, né? Lembra? - Ela disse, levando os óculos de volta ao rosto.
- Ah, Dé, não sei não... É muito cavalheirismo e simpatia pra uma pessoa só! E ele não é assim com todo mundo. Eu já reparei, por exemplo, que nem com a equipe dele ele consegue ser do jeito que é comigo. Só pode ser truque. Ou então são sinais de verdade, e eu tô feito besta ignorando!
- Calma, - Débora disse, procurando manter o controle de sua salinha. - Precisamos ser breves. A sua sessão é só daqui há dois dias, né? Aconteceu alguma coisa hoje? Ontem? O que te deixou assim, tão aflita?
- Nada! Pior é isso... Aconteceu nada! Mas eu fiquei matutando sabe? Pensando naquele dia que ele me deu aquela massagem nos ombros!
- Aquela que ele também fez no Marques, e na Clara? - Ela indagou.
- É... Teve isso, né? Enfim... Pois daqui há dois dias, eu trago novidades. Trago! - Luciana disse, enquanto se levantava eufórica.
- Traga! Traga mesmo! Tem alguém aí fora?
- Tem! - Ela sussurrou, quase berrando, e continuou da mesma forma. - É ele! Tá aqui!
- Pois peça pra que entre, criatura... - Débora respondeu a amiga chacoalhando a cabeça como que envergonhada pelos sussurros absurdamente altos.
Tomás entrou na pequena sala, se esquivando educadamente de Luciana, e imediatamente seus olhos invadiram o ambiente inteiro com seus tons de castanho celestial. Seu sorriso inocentemente malicioso anunciava sua chegada quase como que numa corte medieval.
- Com licença, Débora. - Ele disse, depois de fechar e trancar a porta. - Tudo bom?
- Tudo bom, Tomás. - Débora disse, jogando os óculos na mesa, e roubando para si o sorriso sedutor disfarçadamente trazido por ele. Ela então levantou-se lentamente em direção ao colega de trabalho. - Por favor, sente-se na poltrona... Podemos começar?
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