O Náufrago e a Sereia Perdida
- Lembra da noite em que você veio parar aqui? - Ela o indagou enquanto deixava suas unhas carinhosamente passear pelo seu peito despido.
Os dois deitavam na areia da praia, sob a luz simpática das estrelas enquanto aproveitavam a brisa fria que acompanhava o som inquieto, porém sereno, das ondas do mar na madrugada escura.
- A noite que mudou tua vida? - Ele a respondeu enquanto alisava sua pele macia.
- Presunçoso! Onde tu encontra tanta presunção numa ilha deserta no meio do nada? Onde? - Ela o arranhava mais forte, enquanto sorria, deixando transbordar a sua felicidade mais plena.
- Claro que eu lembro... Lembro todos os dias daquela noite. - Ele a envolveu no seu abraço, e fechou os olhos, como que grato pelo momento, quase num desejo absurdo de que durasse para sempre. - Lembro que eu pensei que fosse morrer no mar escuro e gelado.
- Se identificou, né?
- Demais. Me senti em casa. Aliás, lamentei pelo mar, o coitado. Não merecia me engolir inteiro... Tanto é que me regurgitou aqui, né?
Eles riram e trocaram carícias, que rapidamente evoluíram e se tornaram beijos cujos sons se perdiam na brisa da noite...
- Você tá séria... - Ele disse, quase lamentando ter sido tão sincero. Falou sem pensar, quase enfeitiçado pelo encanto que tinha por ela. Mas temia, de um jeito dolorosamente inédito para si, assustá-la com indagamentos reais demais... - Tá tudo bem?
Ela suspirou, e se sentou. Levou as mãos aos cabelos e encarou o mar, como quem buscasse uma resposta.
- Não. - Ela respondeu.
- O que foi? - Ele levantou-se da posição e sentou-se do lado dela. - Me fala.
- Naquela noite, eu nem devia estar aqui. Eu te encontrei, entre a vida e a morte, e te guiei até a praia... Porque eu ia te matar. Você sabia disso. - Ela voltou seu rosto para o dele, e no escuro da noite, ela encontrou seus olhos pelo seu brilho... - Mas quando você me viu... Mesmo sabendo o que eu era, você sorriu. Sorriu pra mim. Sorriu pra si mesmo.
- Claro. - Ele disse se permitindo recordar. - Você não consegue se enxergar como eu te enxergo... Quando eu te vi, eu sabia que era o fim... Todo mundo do meu mundo conhece as lendas. Vocês matam a gente, mas antes, vem o encantamento... E, poxa, se você fosse a minha ultima visão na vida... Como não sorrir?
Ela o abraçou e o beijou incontáveis vezes.
- Preciso que isso acabe. - Ela disse baixinho, no seu ouvido, quase sentindo a dor do seu coração se partindo. - Eu preciso ir embora.
- Hein...? - Ele a indagou.
- Ja tem oito semanas, - Ela disse, tomada por um sentimento de aflição. - Oito semanas que parti do meu lar... E vim me esconder aqui, porque sei das dificuldades de encontrar essa ilha... Mas uma hora ou outra... Eles vão achar esse lugar.
- O que isso significa? Qual o problema de acharem? Deixa que achem...
- Não é assim... Se te encontrarem, vão te matar. São sereias.... Marinheiros feitos você são sempre mortos. Sempre.
- Então por que você não fez isso? - Ele a indagou.
- Porque eu pensei que... - Ela exitou por um momento, buscando as melhores palavras. - Eu pensei que pudesse aproveitar aquele teu sorriso por um tempo. Pensei que pudesse ser divertido gostar de você por alguns dias. Mas aí uma semana virou duas... E depois quatro... E agora, só de pensar em voltar.....
- Ei... - Ele a tocou o rosto com suas mãos quentes. - Não faz isso, não... Vem comigo. A gente sai daqui. Eu faço uma espécie de jangada com os coqueiros, e seguimos a rota do sul atd onde vimos aquela luz algumas semanas atrás.
- Se eu nao voltar, eu sei que nos próximos dias, vão estar aqui... E se nos virem juntos, talvez nós dois sdjamos mortos. - Ela lamentou entre um beijo e outro. - Eu sinto tanto... Mas preciso voltar.
- Não faz isso. Não escolhe esse caminho, não... Esquece esse molde todo. Eu sei que agora parece o único jeito, mas não é... - Ele lhe disse, enquanto a abraçava e a sussurrava no ouvido. - Vem comigo, vem...
- Não dá, Darian... É arriscar demais. Te perder pra vida, é doloroso, eu sei. Mas te perder pra morte... É um ciúme que eu não quero ter que sentir. - Ela se levantou...
- Essa é a última vez que eu te peço. Por favor... Não faz isso, não. - Ele levantou também, ficando frente a frente com ela. - Eu nem sei se goiabada tão tarde da noite faz bem ou mal, mas... Eu não quero te perder. Não quero sair daqui sem você.
- Não fala isso... Você não é assim. Cadê a presunção? - Ela disse, deixando uma única lágrima lhe escorrer o rosto.
- Eu não sabia sequer que vocês choravam... - Ele disse passando a mão em seu rosto, secando sua lágrima.
- Choramos sim... Por que é que você acha que o mar é salgado? - ela disse, beijando sua mão, e se virando em direção ao oceano, onde desapareceu na escuridão da noite, tão rapida e inesperadamente quanto se fez presente para salvá-lo na noite em que se conheceram.
Fenomenal
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