Se Eu Voltasse
- Tem certeza de que quer fazer isso? - O cientista louco me perguntou uma última vez antes de acionar a máquina que transportaria minha consciência de volta pra Outubro. - Depois que eu te mandar de volta... Não tem volta!
- Claro que não, mas é a única opção que eu tenho... - Eu o respondi, me despindo e entrando na sua estranha máquina do tempo.
- E se você não conseguir acertar as palavras novamente? Entenda que a conexão incomum e inexplicável de vocês se deu por uma série de eventos interligados que dependeram desde reações químicas adversas até o mero humor no qual ela se encontrava no dia em que te viu pela primeira vez. E se alguma variável do espaço-contínuo alterar esse curso, e você voltar pra esse dia, e tudo der errado? E se você tropeçar e sem querer empurrar ela junto? A primeira impressão é a que fica!
- Doutor! - Eu berrei, no auge do nervosismo. - Meu plano é infalível... Prossiga! Acione a máquina!
Como que num brilho interdimensional que separa as tangentes desconhecidas que regem a matéria da realidade, eu me vi perdido entre os limbos da existência e o nada; preso entre a luz e a escuridão... Até que, como se despertasse de um sonho, abri os olhos e me vi na minha cama... Me levantei, conferi as horas e o dia... Havia dado certo! Eu havia voltado no tempo... E teria de reconquistá-la novamente...!
Me arrumei como teria me arrumado normalmente. Saí de casa como quem não estivesse prestes a tomar uma das decisões mais ousadas da vida...
Quando me vi naquele ambiente de trabalho daquele tempo, admito que o elemento nostálgico mexeu comigo, e eu ansiei pela vivência de todo aquele romance delicioso novamente, e por todo o contrato social que ele exigira no começo... Daí recordei o quanto foi real e intenso, e o quanto eu precisava reconquistá-la... Respirei fundo, e caminhei pela porta da frente.
Atravessei o pátio... Passei pelas escadas... Dobrei à direita após a primeira porta, e me deparei com a sala de conferências, onde ela estava, sentada no sofá... Sozinha! O doutor estava certo... Houve alguma espécie de variação espaço-temporal. No meu tempo original, havia uma segunda pessoa com ela, informando-a a respeito dos procedimentos da empresa.
Eu precisava causar uma mudança também, pois se eu usasse os mesmos métodos de uma linha temporal extinta, poderia arriscar perdê-la para sempre. Eu acho. Vai saber...
Me aproximei como teria feito outrora, e reparei quando ela me olhou de lado... Eu teria me surpreendido pela cor dos seus olhos, mas já os conhecia melhor do que aos meus próprios... E foi então que tudo fez sentido! Eu a conhecia bem! E isso deveria valer de algo. Sabia dos seus gostos e das suas preferências. Conhecia até parte dos seus segredos. Sabia exatamente quais eram seus filmes preferidos, e também qual a série já havia visto e revisto incontáveis vezes.
Ela virou o rosto pra mim, e de alguma forma eu consegui me arrepiar de tão lindo que era o seu sorriso... Uma qualidade à qual temo que jamais me acostumarei.
- Bom dia! - Ela me disse animada... Encantadoramente adorável, exatamente como no dia em que a conheci.
Sentei-me ao seu lado, olhando profundamente nos seus olhos... Sorria feito um bobo enlouquecido por uma paixão que nunca existiu... E então, enfrentando a ansiedade que dilacerava meu coração, eu a respondi...
- How yooou doooin'?
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