Em Vão, as Palavras Sinceras

Foi impossível não escutar as duas conversando, na fila do restaurante, sobre o namorado de uma delas. Eu acho até que preferia nem ter ouvido... 

- Ele já vinha agindo estranho desde o domingo, lembra que até comentei contigo? - Uma delas disse. - Mais grudento, mais presente... Mais apaixonado, talvez. 

- Sim, eu lembro que você tinha dito mesmo. - A outra respondeu. - Mas e tu, pensa o que disso? 

- Olha, não sei. Às vezes gosto do jeito carinhoso e atencioso. - Ela disse. - Mas não me deixo levar não, sabe? Falar é muito fácil. 

- Mas se tu mesma disse que ele tava tentando ser mais presente... - A amiga argumentou.

- Pois é! Tem isso! Daí ontem, ele me falou umas coisas tão sinceras, que se eu pudesse eu tinha registrado o momento! 

- Como assim? Quais coisas? - A amiga perguntou, pro bem da minha curiosidade intrometida.

- Nossa, ele olhou pra mim com um olhar tão intenso, e me disse que fazia tempo que não se sentia tão em paz como tinha se sentido comigo no domingo, e que por conta daquele momento, o resto da semana parecia uma folha em branco... Disse que os dias comigo eram como um filme que ele nunca tinha visto, mas que sempre desejou assistir várias e várias vezes... Disse que não entendia porra nenhuma de astrologia, mas que algum planeta devia ter se alinhado com alguma constelação de alguma lua em assenção pra que ele estivesse daquele jeito, tão perdidamente apaixonado... Enfim... 

- Nossa... E tu, mulher? Ficou como na hora?

- Dei um sorrisinho bem meigo, - ela concluiu quando a garçonete chamou as duas pra mesa. - E não acreditei em uma única palavra, claro.

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