Havia uma faca enferrujada no meio da poça de sangue que se estendia por debaixo da perna dela até o corpo de um desconhecido próximo deles. O quarto era bastante escuro, mas uma pequena vela de cera de abelha alumiava o cenário violento o suficientemente para o que estava por vir. - Você... - Não fala. - Ele disse amarrando o pano sobre a ferida na sua perna. - Poupa energia. - Não vai, não. - Ela desobedeceu. - Fica aqui comigo. - Isso vai doer um bocado, tá? Mas não tem outro jeito. - Ele deu um nó gentil nas pontas do pano manchado de sangue, e buscou pelo chão um pedaço de um cabo de vassoura quebrado. - Você vai me deixar sozinha? - Ela perguntou sentindo as lágrimas encharcarem seus olhos e escorrerem pelo seu rosto entre as manchas secas de sangue. - Eu não vou aguentar. Você precisa ficar comigo. Espera aqui junto comigo. - Ninguém vai vir. Não tem ninguém. Só tem a gente. - Ele disse enquanto prendia o cabo num nó atado sobre o primeiro nó. - Isso vai d...
- E ela não costuma te esperar feliz, é? Que estranho... - Ela disse mexendo no canudo do drink, brincando com a intenção de tomar mais um gole, observando, secretamente, o quanto ele disfarçava bem que não se importava se ela beberia ou não. - Ela me recebe bem o suficiente. - Ele a respondeu sorridente, saboreando mais um pouco do whiskey com gelo que pedira ao barman. - Só acho que às vezes podia ser um pouco mais quente, sabe? - Mais quente? Mais quente como? - Ah, sei lá. - Ele disse olhando em volta, como quem buscasse um rosto conhecido pelo lounge da companhia aérea. - Mulheres são criativas, né? Você me parece ser bem criativa. - Você acha, é? - Ela respondeu deixando que um brilho sedutor escapasse dos olhos perigosamente cativantes, cujo olhar nem mesmo o garçom, acostumado com as idas e vindas de incontáveis passageiros diários, foi capaz de escapar. - A senhorita precisa de alguma coisa? - O rapaz, perdido entre os seus vinte e poucos an...
Não sei como foi que Penélope olhou Ulysses quando ele partiu para Tróia. Mas se não tiver sido como ela me olhou hoje quando eu parti, então ouso dizer que entendo mais de mulher apaixonada do que o próprio protagonista de Homero. Feito o que eu imagino que Penélope tenha vislumbrado seu marido pela última vez antes da sua partida, eu imagino que ela me olhou, e nos olhos dela havia todo um oceano infindável de lágrimas que me foram reservadas pelo seu mais puro e inquebrável amor. É assim o tanto que eu sei que ela me ama... De uma forma que não se acaba. De uma forma que apenas aumenta. De uma forma que só ela e eu é quem sabemos. Eu havia iniciado este último parágrafo afirmando que não saberia como foi que Ulysses fez pra aguentar tanto tempo longe de Penélope. E seguiria explicando como a distância provoca uma dor no espírito que vai se abrindo feito um poço profundo na alma deixando uma sensação de vazio horripilante. Como ele pode ter conseguido seguir tanto tempo se...
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