O Truque da Cigana

 - Boa noite... Sente-se, e procure relaxar. - Ela repetiu as saudações como de costume. Eram as mesmas palavras que proferia para todos os clientes que vieram antes dele durante a feirinha anual. Ela mantinha a postura cabisbaixa e encurvada, para que pudesse enfatizar a velhice ao público, assim como os cabelos grisalhos, ressecados como os de uma peruca velha. Os seus olhos, escuros como o carvão que alimentava a chama da pequena fogueira a iluminar a tenda, lhe causavam desconforto quando olhava para cima, quase como lentes que arranham córneas, e por isso ela mal os abria, consequentemente, raramente se dando ao trabalho de olhar nos olhos de quem atendia...

- Olá. Boa noite. - Que voz... Um homem, claro. Interessante? Talvez. Atípico? Improvável. 

- Como posso ajudá-lo? - A voz propositalmente fraca e cansada ecoou pela pequena tenda, enquanto ela embaralhava e espalhava algumas cartas de tarô pela mesinha redonda que os separava.

- Aí que tá... Eu não faço a menor ideia! - A animação era genuína, e quase suficiente pra ocultar um vazio distante bem lá no fundo da alma. Atípico, talvez. Ela cogitou lutar contra o desconforto dos olhos apenas pra que pudesse vê-lo. Vai que a beleza externa fosse proporcional à complexidade do espírito. Lançou três cartas parelelas umas as outras, e disfarçadamente lançou um olhar para ele... E acabou vendo, em seu semblante atraente, incontáveis camadas de casuais disfarces. Em seus olhos, uma versão sábia que se mesclava com sua meiguice. A seriedade morava em suas sobrancelhas, mas dividia o espaço com um senso de humor inigualável, mas não para si, e sim para os demais; para os seus espectadores. Em cada outros pequenos traços daquele rosto, ela poderia ter detectado inúmeras outras facetas, todas minuciosamente desenvolvidas por ele... Mas pra quê? 

- Será que em meio a tantos esforços pra se esconder dos outros, você acabou se escondendo de si mesmo, afinal? - Ela lhe questionou.

- Caramba... A gente já começa assim? - Ele a indagou, sorrindo por cima de um semblante ínfimo de precaução, tentando ver mais do seu rosto coberto pelo véu, que lhe escondia tudo menos os olhos. - Pensou nisso só de olhar pra mim? Sem cartinhas? Sem truque nem mágica?

- Nem toda cigana cartomante é uma fraude, sabia? Nem tudo é truque barato. - Ela disse enquanto recolhia as cartas. - Fique sabendo que uma alma perdida reconhece de longe um espírito que vaga sem rumo, por mais que ele demonstre saber aonde vai... 

A cigana então, inclinou-se para o lado, e buscou, por um momento, algo num baú velho que estava por ali. 

- A senhora precisa de ajuda? - E claro, ele é educado e gentil. 

- Você nem imagina! Mas calma, já achei. Muito obrigada. Aqui... Veja só... - Ela então voltou ao seu assento, e pôs sobre a mesa uma pequenina bolsa de pano, que cabia facilmente na palma de sua mão. - Abra, abra...!

E assim ele o fez. E de dentro da pequena sacolinha, caíram três pequenas frutas.

- Tâmaras? - Ele a questionou confuso. 

- Gosta?

- Não muito... Assim, não é minha fruta preferida, sabe? 

- Ah, ninguém é perfeito! Mas veja bem, - Ela resmungou levantando um pouco as mãos e em seguida tmoando uma das pequenas tâmaras da mão do cliente. - Segundo os árabes, uma única tâmara é o suficiente para manter um beduíno em marcha pelo deserto assolador por três dias. No primeiro dia, ele se delicia com a pele da fruta. No segundo, ele a prova de verdade, degustando da fruta em si, e tudo o que ela tem a oferecer. E apenas no terceiro dia, é que ele acaba com o caroço, ou seja, é quando ele absorve toda a essência. 

- Eu... Não acho que entendi a metáfora. - Ele confessou, procurando ocultar o semblante envergonhado.

- Você é o beduíno. - Ela disse expressando uma certa impaciência. - Entendeu? 

- Hmm! Então... - Ele ponderou. - Me falta achar a minha tâmara. Acertei?

- Na mosca. - Ela acenou escondendo um sorriso por trás do véu. 

- Quanto... Eu te devo? Acabei entrando aqui só pra ver qual era, sabe? Não sei como funciona.

- Olha, aqui tem um custo. Mas como não teve truque nem mágica, e eu nem usei as cartinhas, eu vou, em vez de te cobrar, te dar uma missão. 

- Uma missão? - Ele a questionou sorrindo, curioso. 

- Você mora por onde? Perto daqui da feira? 

- Mais ou me--

- Ótimo...! Amanhã, antes do meio-dia, você vai me trazer um smoothie de tâmaras com café e cacau, lá da cafeteria Horácio. Se não sabe onde fica, pesquisa. Tá bom?

- Certo, mas... E se eu não trouxer, sei lá... Se eu não puder ir? - Ela não o respondeu. Balançou as mãos pelo ar como quem tentasse mostrar a mais absoluta indiferença, e ele entendeu os sinais. - Bem... De qualquer jeito, muito obrigado. Foi um papo legal. Eu vou tentar trazer o smoothie! Boa noite!

...

- Bom dia, cara... - Era um canto até bem gastronômico, com mesinhas de pau branco envernizados e incontáveis plantinhas espalhadas pelos cantos. O cheiro de café coado emanava quase que das paredes, enebriando os fregueses, assim como a ele. - Eu quero um smoothie de tâmaras com café e cacau. Tem isso ai?

O rapaz atrás do balcão acenou com a cabeça enquanto partia para o preparo da bebida, quando uma voz feminina e meiga se fez ouvir...

- Nossa... Eu pensei que só eu gostasse dessa bebida! - Disse uma adorável moça sentada ao balcão, próxima de onde a fila de fregueses se formava. Ele a encarou por um breve instante enquanto buscava uma resposta séria, que nunca veio.

- É pra uma... Conhecida. Eu mesmo nunca provei. Deveria? - Ele a questionou, ao se aproximar um pouco mais dela. 

- Ah, não sei. Acho que vale a pena. - Ela lhe disse, mas ele mal a ouviu, distraído pelo encanto de todo aquele conjunto que era ela... A postura elegante e jovial, os olhos castanhos cheios de luz, os cabelos sedosos, negros e longos, e o belíssimo sorriso sincero. - Né?

- Posso sentar aqui contigo? - Ele disse, puxando uma cadeira e sentando-se junto dela.

- Caramba... - Ela falou sorridente. - E a gente já começa assim?



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