Olhos de Nebulosa


 

- Não pensei que fosse voltar... Não do modo que se despediu. 

Acontece que Mara era um tanto incomum, tanto no seu jeito de ser, como em sua fé no elemento mais tortuosamente maléfico do universo, o ser humano... E, consequentemente, ainda jovem demais, se deixou envolver por ele e suas histórias que, enquanto tomadas por falácias ou mera ficção, a encantavam além do que ela mesma gostava de admitir... A única prosa mais sensual do que um amor proibido, é aquela do amor impossível. Anjos e demônios. O sol e a lua. Deuses e mortais.

- Não fazia parte dos meus planos voltar para cá, Mara. - Ele lhe disse enquanto se levantava da cadeira, já sem medicamentos correndo pelo seu sangue e livre do abraço sufocante da camisa de força, e caminhava até ela. Trazia no olhar desperto um fogo emanado por todo o seu desejo, que a deixava sem jeito... Deliciosamente sem jeito. - Eu sinto que já estive em todos os lugares, de todos os tempos, de todos os espaços... Fui até onde pude, e mergulhei nos mais densos buracos negros da existência de ontem e do amanhã. VI lugares que ainda não existem, e o começo de mundos dos quais não resta mais sequer a poeira cósmica que os gerou... EU presenciei, Mara, o começo do fim, e o magnífico início de todo um novo universo escondido entre os anéis de um gigante gasoso, e então segui o rastro milenar congelado de um cometa perdido enquanto admirava as suas gigantescas estruturas cristalinas... Foi então que um brilho escondido no canto da minha visão me chamou a atenção. 

- Um brilho...? - Ela o indagou enquanto os dois se davam as mãos, e ela podia sentir o seu calor preenchendo o seu vazio. - O que era?

- Chamava por mim, Mara. Eu sei que chamava... Um presente do cosmos. Uma revelação. Um vasto agrupamento de estrelas em seus últimos momentos, em seu suspiro final. Observei, enquanto me aproximava, centenas de vidas ao longe, pude ver de perto a explosão de mil sóis incandescentes de pura energia viva, tão intenso quanto o próprio calor da vida... Por décadas enfim, me permiti admirar o semblante apaixonante das cores, que se emaranhavam numa dança cósmica do mais belo castanho alaranjado velado por um gentil azul anil da vida... Vívido e belo, aconchegante e viciante.

Enquanto uma única lágrima lhe escorria o rosto à medida em que ele lhe descrevendo a experiência que o havia trazido de volta, Mara o questionou, sentindo seu coração pulsando sobre o peito.

- Por que foi que voltou? Pra contar tudo isso, e partir novamente? Você sabe que não posso te acompanhar nessas jornadas. Não tenho esse teu dom... Cansei de te ver indo embora por dias... semanas... às vezes, meses! Por que foi que voltou dessa vez?

- Voltei pra ficar, Mara. Sem mais viagens. Eu não preciso mais explorar o cosmos, e as infinitas realidades espalhadas pelos infindáveis universos. - Ele lhe disse, olhando profundamente em seus olhos castanhos.

- Não precisa...? Como é que eu vou saber que está falando sério? - Ela lhe disse, buscando um único motivo que a permitisse uma desculpa pra se entregar novamente ao seu abraço, e pudesse enfim, se perder nos seus braços novamente, sem o receio de mais uma partida catatônica.

- Não preciso, Mara. A nebulosa foi o evento mais apaixonante que já vi no decorrer das minhas viagens. Foi mais bela do que o que o que eu pude descrever, e ainda assim, era de um brilho tão magnífico, e tão familiar... que eu não demorei pra entender que se tratava do mesmo brilho de outono que emana dos teus olhos... Então, me diz, pra quê viajar tão longe, se tenho comigo bem aqui perto de mim, a mais encantadora luz de todas, nos teus olhos de nebulosa?




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