You Wanna Ride?



- Hey... You wanna ride? – Foi isso que eu falei, e foi desse jeitinho que a gente se conheceu, sem mais nem menos. Eu vinha, em pleno calor de Julho, no meu carro descendo a interestadual 45 praticamente sozinho quando mais a frente, ao longe, vi os cabelos negros dela balançando ao vento. Pode ser que eu tenha acelerado um pouco, mas sinceramente não lembro... Diminuí a velocidade, e fiquei acompanhando os passos dela puxando a mala de rodinhas pelo acostamento, até que ela olhou pro lado, e eu fiz a pergunta. Ela lá, linda como eu havia suposto já de quase uma milha atrás, baixou um pouco os óculos de sol, e me deu uma encarada da qual nunca quero esquecer... Puxou um sorriso da ponta dos lábios, e me disse:

- Definitely...

- Well, let’s go!

Ela veio animada. Abriu a porta e jogou a malinha pro banco de trás. Antes mesmo de perguntar qualquer coisa, conferi no retrovisor se vinha alguém por trás, liguei a seta e continuei meu rumo com aquela princesa do meu lado.

- Thank you! – Ela disse. E foi tudo que eu precisava ouvir. Aquela pronúncia característica do “th” junto com um som mais específico das vogais. Eu olhei pra ela e sorri antes de questionar.

- Você é brasileira.

- Mentira! – Ela se mostrou chocada, com os olhos arregalados e um suspiro assustado.

- Pra você ver, né? – Entenda... É claro que eu queria saber de onde ela era, e o que fazia, e toda a história que explicaria os motivos por trás dela estar sozinha na interestadual no meio do Texas, mas eu também queria impressionar. Então, mais que naturalmente, eu acabei vestindo a fantasia de indiferente. Se funcionou ou não... – Pra onde você tá indo?

- Olha, - ela disse passando as mãos pelos cabelos. – eu nem sei mais pra falar a verdade. Se eu só chegar num aeroporto, já tá ótimo. A pessoa quando só quer ser guiada, sabe?

- Sei sim. – Eu respondi, querendo olhar pra ela, mas com os olhos na estrada.

- E você? Vai pra onde? Vem de onde? – Ela perguntou se virando um pouco de lado no banco pra poder olhar pra mim mais facilmente. Injusto, né?

- Voltando de um seminário em Dallas, indo pra Houston. Podia ter voltado de avião, mas tava afim de aproveitar a viagem. Tentar uma aventura, sabe? Entende? – Falei, e até consegui virar um pouco o rosto e olhar pros olhos castanhos claros dela.

- Hmmmmm, entendi... E como ta indo a aventura?

- Olha, acho que acabou de começar. – Eu lhe disse sorrindo.

- Ah, é...? – Foi aí que eu pensei ter visto algo naquele olhar. Mas quem disse que eu sequer consigo começar a explicar? Não dá... A sensualidade daquele olhar...

- Que tal uma pausa? Pode ser? – Eu perguntei tentando escapar daquele olhar, e apontei pra uma placa de um Motel 6 logo à frente, praticamente no meio do nada, como de costume na interestadual. – A gente pode rachar um quarto pra ficar ainda mais barato.

Ela curtiu a ideia, e na hora lembro que me limitei a não pensar muito sobre o que ela estava pensando. A gata tava cansada... Vinha caminhando no sol... Deve ter aprovado a ideia da pausa porque de fato queria descansar, e topou rachar o quarto porque, enfim, dinheiro...

- Nossa, eu preciso muito de um banho. Posso ir na frente? – Ela perguntou assim que entramos no quarto. Havia uma cama de casal de frente pra uma TV velha, e ao lado da cama, a porta para o banheiro, e um janelão coberto com cortinas.

-Vai lá. Eu vou depois. – Eu disse.

- Tem certeza? – Puta que pariu. E agora? O que era aquilo? A pergunta era sobre o que? Certeza de ir depois, e não com ela? Ou certeza de que ela poderia ir na frente? Olhei pra ela inteira, e fiz questão que ela notasse, desde as unhas azuis dos pés descasadas com as vermelhas da mão, até os fios de cabelo lisos.

-  Geralmente, não.

Ela sorriu, me deus as costas, e entrou no banheiro. Não trancou a porta, deixando aberta só um pouco. O suficiente pra que um homem honrado e cheio de virtudes não olhasse pro espelho embaçado e visse o delinear sedutor do seu corpo despido... Eu teria entrado pouco depois dela ter ligado o chuveiro quente. Teria fechado a porta pra que ela me ouvisse entrando... Depois de me despir, entraria no box, por trás dela, com as mãos na sua cintura, levando meus lábios ao pescoço dela, e passando as mãos pelo seu corpo molhado e quente... Mas não entrei. Seria arriscado demais. Afinal, se você pensar bem, todos os sinais poderiam ser fruto da minha imaginação. Eu crio as coisas rápido demais, já me disseram.

Eu estava na cama, vendo qualquer coisa no celular quando ela saiu do banheiro, de toalha apenas. Foi quando ela, sem dúvidas notando meu olhar preso no dela, me disse...

- What about my ride…?

Como tudo aconteceu, não preciso nem descrever em detalhes, né? Não nessa história... Mas foi surreal. Um encaixe perfeito... De todas as cenas que imaginei, nenhuma se aproximou do que houve naquela tarde... Só de lembrar, eu fico sem jeito.

O alarme do quarto me acordou exatamente as 23:01, e eu me levantei confuso, além de sozinho com os lençóis amassados na cama... Olhei pela janela, e admito que fiquei aliviado de ver meu carro no estacionamento. Olhei ao redor do quarto em busca de alguma pista, e nem sei se fiquei aliviado ou devastado quando vi um pequeno bilhete próximo à porta.

“Feliz de ter feito parte da sua aventura. It’s fun to meet nice people.”


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