Por Trás do Palco
A cena encerrou-se perante a platéia, e as luzes se apagaram, espalhando a escuridão por todo o teatro. As cortinas esconderam o palco como de costume, e toda ação sorrateira começou com astúcia e dedicação sem iguais.
A árvore de papelão e folhas de papel machê foi rapidamente recolhida por dois ajudantes de palco.
A torre do castelo, ao fundo, de MDF coberta com acervos de isopor colorido, se viu arrastada pelo figurante que interpretava uma das fadas perdidas.
Todos os atores e atrizes, com exceção do mago das ervas, que dispensava a troca de figurino, silenciosamente se dirigiram, por trás das cortinas, para os lados de modo a trocar de figurino, enquanto outros, tais como o príncipe íntegro, a donzela meiga, a bruxa sarcástica e o ladrão incorrigível.
No caótico momento por trás do palco, estes mesmos quatro integrantes, guiados por dois ajudantes, trocavam de figurino e ensaiavam na mente as falas da última cena que estava por vir. A pressa e a correria, quase que agindo como cúmplices de uma trama real e secreta que por ali se desenvolvia, ajudavam a disfarçar a troca de olhares, toques e, às vezes, até beijos furtivos e clandestinos entre dois deles...
As luzes retornam, e delicadamente retiram a escuridão do recinto.
As cortinas se abrem novamente.
A peça tem, enfim, continuidade.
Na cena final, o príncipe, com toda a sua honra, conquista a meiguice da donzela, e a toma em seus braços, após vencer as trapaças e disfarces do ladrão num duelo dramático, profetizado anteriormente nos versos sarcásticos da bruxa...
O discurso de amor e paixão da donzela para o seu príncipe ecoa pelas cadeiras e emociona a todos os espectadores...
Os críticos ovacionam a performance de todos, mas exaltam a atuação impecável da donzela, enfatizando o seu discurso fervorosamente apaixonado... Palavras que entregam mérito não só ao autor, mas também à distinta e incomum atuação da atriz por trás daquela meiguice... Era como se... Como se estivesse, de fato, perdidamente apaixonada!
Das cadeiras da platéia, porém, o que não se via ao certo... Era para quem as palavras da donzela eram proferidas, de fato. Para quem, em meio ao seu discurso aclamado pela crítica, ela lançava o seu olhar...
Ao príncipe, honrado... fictício.
Ou ao ladrão, incorrigível... porém real.
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