Um Vislumbre em Sinais de Fumaça
Eles me encontraram entre a vida e a morte, sete dias depois de subirmos o rio no último sábado, cercado pelas árvores densas da mata virgem, que parecia tentar me engolir ainda vivo, talvez para que tentasse sugar para si o pouco que ainda me restava de força vital.
Lembro, quase como se sonhasse, que me carregaram gentilmente em seus ombros por uma trilha à qual nem eu nem meus companheiros - agora já todos mortos - havíamos conseguido localizar, e me levaram até a sua tribo, escondida e antiga, bem no coração da mata fechada.
Me alimentaram depois que acordei de um profundo e tranquilo sono ao qual suponho ter sido induzido de alguma forma ritualística. No ponto em que eu me encontrava, admito que nem mesmo rituais satânicos eu teria negado. E então... Tudo começou de verdade.
Dois homens altos e fortes entraram em minha pequena tenda, e me sugeriram gestualmente que eu os deveria acompanhar, e foi exatamente o que fiz.
Lá fora, a fogueira enorme parecia buscar comunicar-se com o céu noturno numa espécie de dança folclórica à qual eu quase cheguei a duvidar ser possível. Como uma chama poderia ser tão intensa e tão alta, eu temo jamais poder ser capaz de responder.
Os meus guias me levaram até aquele a quem eu batizei com a suposição de que seria o chefe da tribo. Ele me deu um caloroso abraço e num movimento gentilmente bruto, me sentou num dos troncos ao seu lado, junto de outros quase trinta ou quarenta membros da seit-- perdão... Tribo.
- Você, viajanto... - Ele se esforçou e errou, mas de alguma forma estava falando minha língua. A minha reação é dispensável. - Fume conosco... E nos digue... O que é que você vislumbra! - E então, de dentro de um baú ao seu lado, ele tirou um enorme cachimbo de madeira avermelhada, tão belo quanto era imponente, e, usando ambas as largas mãos calejadas, me entregou a peça cerimonial. - Fume! Fume! Vislumbre!
O que mais eu poderia ter feito? Fumei...
E lhe digo...
Houve de fato um vislumbre que se fez aparecer, lenta a sedutoramente, entre os círculos e as poses inconstantes da fumaça, e que me deixou, tão facilmente quanto caminhou até nós, estupidamente encantado e sem ações que pudessem ocultar o meu sorriso mais bobo, porém sincero...
Foi ali, naquele vislumbre, onde eu percebi, de verdade, o quanto o mundo se escondia por trás de uma imagem gigantesca, mas que não era nada além de pequeno, em função de tudo o que eu senti quando dei conta enfim de enxergar, por entre os incontáveis fios do véu fino e derradeiro da fumaça, a imagem que me trouxe a mais genuína alegria, satisfação, e prazer...
Era o delicioso vislumbre pelo qual eu ousei me aventurar selva adentro afim de arriscar uma mera troca de olhares tão incandescente quanto o amor que eu sentia me queimar a pele de forma tão forte quanto queimava a erva dos nativos.
Era o ápice das minhas incontáveis motivações para estar ali, naquele momento, cercado de toda aquela amizade recente e improvável, e junto daquela mais perfeita e impecável revelação que se deixava vislumbrar, noite a dentro, pelos nossos intermináveis sinais de fumaça...
Comments
Post a Comment