Mochilas Prontas
Escondida onde só eles dois sabiam onde, a cabana era uma espécie de santuário onde eles podiam se permitir intermináveis intimidades distintas e deliciosas... Um local onde os pecados do mundo afora eram não somente bem-vindos, mas vistos e encarados como belas virtudes.
Havia, porém, feito uma mancha de vinho tinto sobre o assoalho, uma sensação de que a cabana, junto de tudo aquilo que ela representava pra eles, era tão frágil quanto era perfeita... Tão duradoura quanto a eternidade de um breve momento... Tão tangível quanto a própria saudade que ela prometia deixar, uma vez que não mais existisse...
Por tanto, era comum que os dois sempre estivessem, durante aquele precioso tempo juntos, de mochilas prontas para a eventual partida... tanto de um, quanto do outro, quanto também, diga-se de passagem, dos dois juntos, porém separados... Seguindo, pela floresta afora, caminhos distintos. Lamentavelmente distintos.
- Sabe... - Ele disse.
- Diz, diz... - Ela respondeu, deitada junto dele na sala enquanto o som tocava.
- Eu não quero ficar aqui assim... - ele se contorceu um pouco, de modo a encontrar o olhar dela. - De mochila pronta. Eu quero ficar aqui.
- Tem certeza? - Ela disse, quase sorrindo, se não for muita presunção descrevê-la assim.
- Absoluta. Me ajuda a tirar as coisas?
e havia uma mochila pronta?
ReplyDeleteeu ao menos pensava, ou melhor, conseguia arrumar uma antes de te ver?
eu conseguia pensar em algo que não fosse correr para os seus braços no momento em que eu visse você?
não tínhamos que nos dar ao trabalho de desfazer a mochila, pelo menos não a minha, porque não havia uma.
agora, segue a minha linha de raciocínio...
eu precisava levar algo a mais do que as roupas do corpo e a vontade de mergulhar na nossa intimidade, na nossa bolha de paixão?
acho que até as roupas são inúteis.
afinal, não precisaremos delas mesmo.