Não pode esquecer
Eu espero que, de alguma forma, ela lembre de tudo que eu falei, e de todos os momentos mais íntimos nos quais eu dei um jeito de demonstrar o tanto de verdade que havia naquelas palavras.
Eram palavras recheadas num doce que a gente só encontra na mais exótica mistura de sentimentos, sabe? Não é uma coisa só, como um potinho de geleia de morango. Não, não... Nesse caso é uma fatia de pão que alguém prepara pra ti cedinho, antes mesmo de você acordar, pois assim é o amor. Daí, quando você come, descobre que tem requeijão acolchoando a geleia, que contrasta um pouco com o doce de leite. Eram assim as minhas palavras pra ela.
Acontece que o tempo foi passando e, como todo o resto que existe no mundo, o meu sentimento maluco de intenso foi mudando também. Decidiu ser do contra, e em vez de pegar abuso do grude todo, eu fiz foi precisar mais e mais já que a progressão desse amor foi se expandindo geometricamente.
Nem as palavras recheadas pareciam mais ter o efeito que eu buscava, já que a gente bem sabe que quando repete muito uma única coisa, aquilo tende a perder o sentido...
Foi então que numa belíssima tarde de domingo... ou pode ter sido de um sábado... eu resolvi de colocar ela no sofá, do jeitinho que ela tava mesmo, e então, bem sério, expus tudo do jeito mais geleia no pão o possível... Depois, segurei as mãos dela nas minhas, e selando o papo com um beijo sincero, eu compactei tudo o que disse num único jargão só nosso:
- Não pode esquecer.
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