Quem falar...

- Gente, é o seguinte, - Tarcila, a professora de português, falou, exaltando-se sem ao menos perceber os movimentos bruscos que a tomavam de refém enquanto parte da turma jogava fora conversas paralelas. - Eu quero silêncio nessa sala de aula! Assim fica impossível da gente seguir em frente com o conteúdo, poxa! 

Acontece que a súplica não surtiu o efeito necessário, e quase nenhum dos alunos, encharcados numa energia que parecia inacabável, se permitiu o favor de ficar em silêncio. 

- Galera! -  Uma das meninas mais influentes da turma fez sua voz ecoar pela sala. - Quem falar, vai ganhar um beijo do Arnaldo! - E assim, o silêncio subitamente reinou pela sala.

Acontece que Arnaldo era o professor de matemática cuja luta contra a aposentadoria lhe marcava as rugas do rosto. Era até injusto que o chamassem de múmia egípcia, já que estas ainda possuíam algum semblante de conservação.

Tarcila, que antes buscava o silêncio junto de um semblante impaciente, agora lutava contra o sorriso que sorrateiramente se formava nos seus lábios. Não sabia se ria do desafio, ou da infantilidade que se escondia pelas suas entranhas, impedindo-a de continuar o conteúdo, visto que se proferisse uma sílaba sequer, correria o risco de merecer um beijo de Arnaldo. 

- A tia tá querendo rir! - Um dos meninos do fundão apontou, porém a bala saiu pela culatra, e toda a sala riu, numa euforia incontrolável, do idiota que rompeu o silêncio. 

- Quem falar... - A garota influente iniciou a próxima rodada. - Vai ter que namorar a Rita! - E o silêncio, mais uma vez, se fez o mestre do ambiente. 

Tarcila chacoalhou a cabeça como quem desaprovasse da frase, ainda mais porque bem sabia que Rita, a professora de biologia, não tinha culpa da aparência estranhamente desprovida de qualquer beleza natural. Era quase injusto rir do rumor que os alunos espalhavam entre si, sobre os motivos pelos quais ela sempre caminhava pelos corredores incansavelmente: Quando criança, Rita aprendeu a andar muito cedo, já que ninguém a pegava no colo.

- Deus me livre! - Algum moleque cuja dedução lógica não era o seu forte, expôs o quanto não gostaria de namorar a professora de biologia. Novamente a sala foi tomada pela euforia incontrolável equivalente a de um zoológico de primatas pegando fogo. 

- Queeeeem falaaaaar... - A garota insuportavelmente influente engatou a terceira rodada. - Vai ter que agarrar o professor Dalton!

- Pessoal, - Disse Tarcila, antes mesmo que o silêncio pudesse ter tido a sua chance de brilhar. - Ôô brincadeira besta, essa de vocês!

 





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